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Memórias de minhas putas tristes: como a covid afetou a sobrevivência de mais de 500 prostitutas de bordéis em Natal

13 de abril de 2020

Desde que abraçou a mais antiga das profissões, Diana Soares, hoje aos 61 anos, nunca atravessou momento tão escasso de homens.

Como Rosa Cabarcas, a cafetina aposentada de ‘Memórias de Minhas Putas Tristes, romance de Gabriel Garcia Marques, Diana não largou a missão de facilitar a vida de suas representadas. Mas a empreitada está difícil.

A pandemia de covid-19 afastou clientes, fechou bordéis e agravou as incertezas de mais de cerca de 510 prostitutas que se abrigam sob a precária Associação dos e das Profissionais do Sexo e Congêneres do RN (Asprorn).

A maioria dos clientes, explica Diana, são homens que se enquadram em grupo de risco. Já o perfil das prostitutas são de mulheres da periferia, de baixa renda, acima dos 30 anos.

“Nos tempos de vacas gordas, eram 10 ou 15 programa num dia. Antes da pandemia, a gente só conseguia bater essa meta na semana. Agora, está ainda mais difícil”, detalhou Diana. Segundo ela, há solidariedade entre as prostitutas: aquelas que conseguem fazer um programa, às vezes partilham o dinheiro que conseguiram com outras.

Um atendimento custa em média R$ 50,00, na modalidade expressa. “Papai e mãe. O serviço completo, faz tudo, todas as formas de sexo, chega a R$ 100 até R$ 150”, explicou a representante da Asprorn. “

Ela atendeu pela última vez há dois meses. “Era um cliente antigo, estava doente. Ele até arrumou uma forma de me compensar, me chamando para ser acompanhante, cuidadora”, completou.

Sem aposentadoria, Diana conta com a filha para ajudar em casa. “Ela também está na luta. Chegou duas da madrugada, mas só conseguiu atender um cliente”, conta ela.

Para se proteger da covid-19, vale passar precaução por fetiche. “Algumas mulheres têm usado máscara e apelado para o fetiche. Usam para se proteger, mas fazem tipo a Tiazinha”, revelou.

A triagem para sondar a saúde do cliente é feita em conversa. As mulheres vão sondando, se equilibrando entre a necessidade de conseguir um cliente e manter o meio de sobreviver. Para as que têm local próprio, a situação é menos difícil.

“As mulheres que moram no ambiente em que batalham ainda contam com a sorte de terem clientes ajudando aqui e acolá”, contou ela ao Blog do Dina.

A Asprorn atende mulheres especialmente situadas na zona Norte e bairros de baixo perfil econômico da zona Leste de Natal, como Rocas, Alecrim e Cidade Alta.

Franca na conversa, Diana preferiu reserva na hora de detalhar os atendimentos. “Não vou dizer onde há atendimentos porque estou falando de bordéis. E a polícia, se souber, fecha”, avisou.

Com a renda fortemente afetadas, as prostitutas se viram com rendas alternativas. Para muitas, a principal renda neste momento está sendo o Bolsa Família. A renda provisória de R$ 600,00 dada pelo governo federal também tem chegado para algumas. A desinformação, no entanto, ainda atrapalha bastante.

“A maioria das mulheres que nos procuram tem um perfil que não é das garotas novas que têm acesso a notebook e fazem o dinheiro delas mais facilmente”, analisou a representante da Asprorn.

“A associação meio que se perdeu. Mas eu ainda sou muito procurada por elas. A atividade sexual já estava muito prejudicada com toda essa história de tráfico e drogas e agora piorou. Mas continuamos ajudando aquelas que nos procuram”, garantiu.

Bonequinhas de luxo

Já em outra zona de Natal, a Sul, o perfil de prostituição é o oposto. Tão oposto que as garotas com quem o Blog do Dina conversou ao longo desta manhã sequer sabiam da existência da Asprorn.

“Nunca ouvi falar”, revelou Dany Araújo. Ela cadastrou seu perfil em site que oferece o serviço. Diz ter 27 anos e “safada na medida certa”. Ela suspendeu os atendimentos porque, explicou, tem renda alternativa.

Já Anitta, auto-proclamada dona de um oral inesquecível, explicou que seus atendimentos caíram para até três por dia. Ela explica que conseguiu ainda manter alguns clientes porque atende em lugar próprio, o que facilita nesse momento.

É a mesma situação de Bianca. Ela está atendendo até seis clientes por dias, dando de ombros para o risco de se contaminar.

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Uma resposta para “Memórias de minhas putas tristes: como a covid afetou a sobrevivência de mais de 500 prostitutas de bordéis em Natal”

  1. Washington Ribeiro disse:

    A ASPRORNE é uma ong que muito tem feito pelas vitimas da AIDS.

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