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Precisamos falar sobre a insustentável futilidade do ser

1 de maio de 2020

O controle da narrativa dos Stories do Instagram foi implodido pelo isolamento social imposto em face da pandemia de covid-19.

Influenciadores digitais que tracejavam sua rotina em vídeos de 15 segundos milimetricamente planejados com viagens, restaurantes, lojas, festas, agora se vêem obrigados a produzir conteúdo a partir do lugar onde se despojam de si mesmos: a própria casa.

Nas correntes de psicologia, diz-se que o lar é o lugar onde você tira suas máscaras. É nele que você realmente pode ser quem é, sem se preocupar com os julgamentos ou opiniões. No lar, não raro, adota-se o pensamento de que não é preciso agradar ninguém.

Daí decorre o pensamento lógico segundo o qual as pessoas que amamos são as que mais têm capacidade de nos machucar, porque nos conhecem em nossa inteireza.

Um seguidor no Instagram pode reagir a seus stories dizendo que sua roupa não é legal. Mas só alguém do seu convívio poderá lhe atingir advertindo que não é que a roupa é feia. O estranho mesmo é postar felicidade se queixando da vida cotidiana.

O isolamento obrigou a todos, nem só os influenciadores, a exibir vídeos de 15 segundos de dentro de casa. No começo, havia um quê de novidade. Passados quase 60 dias, não há mais recorte inédito do cotidiano sobre o qual aplicar filtros, e o controle da narrativa da felicidade plástica foi implodido.

Foi nessa esteira que se deu o ‘sincericídio’ de Gabriela Pugliesi. Pioneira em vender um estilo de vida compatível com as liberdades de um mundo anterior à covid-19, a influencer esgotou seu reportório no confinamento e se viu traída por si mesma ao exibir uma festa em casa na qual desnudou a insustentável futilidade do ser.

Gabriela é só o exemplo mais agudo da crise. Afasta-se a mera crítica sobre o desejo por todo o conforto e vida saudável que ela vende e aproxime a lupa sobre as nuances da situação. Ambicionar conforto é desejo natural do homem.

Mas influencers como Gabriela reportam ao mundo que exteriorizam em viagens, roupas e restaurantes um estado interno de espírito cultivado no equilíbrio da autoestima.

Contudo, a pandemia de covid-19 derrubou a narrativa e mostrou que, por dentro, há mil vazios que ferem e que o remédio para a dor deles resultante é a busca incessante por elementos externos.

A futilidade do ser se torna insustentável quando não há filtro que lhe possa mascarar o que se é. Confinados, aqueles que vendiam autoestima na forma de viagens, luxo e bem-estar agora se vêem exibindo o que realmente têm: nada.

O mundo pós covid-19 será diferente em muitos aspectos. Já é certo que esse modelo de influenciadores foi fortemente atingido. Arrisco dizer que ainda sobreviverá com a ajuda de respiradores, antes do suspiro final.

Comentários


2 respostas para “Precisamos falar sobre a insustentável futilidade do ser”

  1. Alysonvdb disse:

    Nessa situaçao de isolamento parece q os influencers perderam muito doq usavam como atrativos pra suas postagens. No caso da Gabriela, acredito q ela errou no episódio da festa, mas tbm creio q o julgamento foi rápido e duro demais!

  2. Célia Santos disse:

    Disse tudo! 👏👏👏👏👏

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