MP suspeita que mais de 20 setores da prefeitura do Rio participavam de suposto esquema de corrupção

14 de setembro de 2020

O Ministério Público estadual do Rio suspeita que o suposto esquema de corrupção na prefeitura do Rio, pelo qual são investigados o empresário Rafael Alves e o prefeito Marcelo Crivella, tenha se expandido para muito além da Riotur, enraizando-se em várias esferas da administração municipal. Análises de trocas de mensagens, contratos firmados e pagamentos realizados apontam, para o MP, a existência do esquema em pelo menos 20 órgãos da prefeitura, incluindo o gabinete de Crivella e secretarias como as de Saúde e Educação. Os dados constam na representação do MP por busca e apreensão em endereços de Crivella. Os mandados foram cumpridos na última quinta-feira.

Segundo informações do documento, ao qual O GLOBO teve acesso, o esquema começou a ser articulado por Rafael ainda na campanha de Crivella. O pactuado, apontam as investigações, era o pagamento antecipado de propina durante a corrida eleitoral, em troca de vantagens futuras no governo do bispo licenciado. As promessas transitavam por obtenção de contratos com a prefeitura, prioridade nos pagamentos e nomeação para cargos.

Mensagens de celular

Trocas de mensagens em celulares de Rafael Alves, apreendidos em março deste ano, expõem como funcionava o esquema. O empresário, apontado como um dos principais articuladores de Crivella, é irmão de Marcelo Alves, ex-presidente da Riotur.

Segundo análise do MP, ao menos cinco empresas com as quais Rafael mantinha relação e contato com representantes não só tinham contratos com a administração municipal, como conseguiam prioridade no pagamento dos valores devidos pela prefeitura. Os procuradores citam como exemplo uma empresa de comunicação contratada pelo gabinete do prefeito, que recebeu R$ 32 milhões entre 2017 e 2019.

O MP aponta que o valor integral dos serviços foi pago, ao contrário de “centenas de outros contratos ligados a atividades essenciais, como saúde e educação”. Rafael, apesar de não ter nenhum cargo no Executivo municipal, chegava a avisar representantes das empresas sobre as datas em que a prefeitura faria pagamentos pendentes. Entre novembro de 2017 e maio de 2018, as cinco empresas receberam pagamento de mais de 20 órgãos da prefeitura do Rio. Para os promotores, a extensão do esquema “revela o inexorável envolvimento da mais alta autoridade da administração municipal na organização criminosa”.

Três dessas empresas pertencem a João Alberto Felippo Barreto, também dono da Locanty Serviços. Segundo delação do doleiro Sérgio Mizrahy, João trabalhava em conjunto com Rafael Alves.

Os procuradores citam a Rioluz como um dos principais órgãos municipais sob influência da organização. Em trocas de mensagens em 2017 e 2018, Rafael e Mauro Macedo, primo de Edir Macedo e tesoureiro da campanha de Crivella, conversam sobre contratos da empresa pública, pagamentos a serem feitos e até mesmo a frustração de um empresário que teve como promessa a indicação do presidente do órgão, o que não ocorreu. As investigações também apontam indícios da manipulação de uma licitação na Secretaria de Ordem Pública (Seop), cujo objeto seria a contratação de reboques.

Outras conversas, para os investigadores, não deixam dúvidas da influência de Rafael no Executivo municipal. Em mensagem para Crivella, o empresário afirma que deixou para o prefeito uma indicação para a presidência da Previ-Rio.

Em outra ocasião, em diálogo com o ex-senador Eduardo Lopes, Alves é explícito ao afirmar que conseguiu exonerar o “sub da Barra” e afirma que está tentando indicar um nome. Para os investigadores, ele se refere ao cargo de superintendente da Barra da Tijuca, atual nomenclatura das subprefeituras.

Primeira indicação

O próprio ex-presidente da Riotur, Marcelo Alves, foi colocado no cargo pelo irmão, Rafael. Crivella admite a influência do empresário em mensagem enviada a ele às vésperas de assumir a prefeitura. “Lembra que lá atrás você disse que queria que seu irmão fosse presidente da Riotur. Foi a primeira indicação que fiz”, respondeu o prefeito a Alves.

Os procuradores afirmam que há indícios de que o grupo tenha cometido corrupção passiva, peculato, fraudes licitatórias, lavagem de dinheiro e crimes de responsabilidade. As investigações estão em andamento. A assessoria da prefeitura do Rio não emitiu novo posicionamento, limitando-se a enviar vídeos do prefeito comentando as investigações, com seus textos decupados.

Nas gravações, Crivella afirma que é “acusado de tudo”, mas não é réu de nada. O prefeito ainda é investigado pelos procuradores e Polícia Civil, e pode virar réu na ação referente a essa apuração. Ontem, o Tribunal de Justiça derrubou o segredo de Justiça da investigação contra Crivella, como informou Ancelmo Gois.

O GLOBO

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