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Os seis fatores que tornam incêndios no Pantanal difíceis de serem controlados

17 de setembro de 2020

Os incêndios de grandes proporções que avançam rapidamente pelo Pantanal devem ser controlados somente por meio de chuvas constantes no bioma, avaliam especialistas.

Pesquisadores apontam que a demora do poder público para intervir no bioma em chamas fez com que as queimadas se propagassem rapidamente na região. Além disso, algumas características do Pantanal dificultam o combate ao fogo.

De janeiro à primeira quinzena de setembro deste ano, o Pantanal teve mais de 2,9 milhões de hectares atingidos pelo fogo, segundo o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo). O número representa cerca de 19% do bioma no Brasil, conforme o Instituto SOS Pantanal. A área queimada corresponde, por exemplo, a pouco mais de 19 vezes a capital de São Paulo.

A BBC News Brasil ouviu especialistas que explicaram seis fatores que apontam que o fogo que atinge o Pantanal somente deve ser controlado quando houver chuvas na região.

1 – Período extremamente seco

O ano de 2020 é considerado um dos mais secos da história recente do Pantanal, localizado na Bacia Hidrográfica do Alto Paraguai (BAP).

Nos períodos de cheia, os rios da Bacia do Alto Paraguai costumam inundar milhares de hectares do bioma. “Esse é o ciclo comum. Mas quando há uma seca severa, as coisas mudam e ficam difíceis”, explica o biólogo André Luiz Siqueira, diretor da ONG Ecoa – Ecologia & Ação.

Entre outubro e março, a região do Pantanal, importante área úmida do planeta, teve volume de chuva 40% menor que a média do mesmo período em anos anteriores, conforme dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

2 – O ‘fogo subterrâneo’

Uma característica do Pantanal que dificulta o combate aos incêndios é o fogo de turfa, também chamado de “fogo subterrâneo”, que queima sem que as pessoas percebam.

Os sucessivos períodos de secas e cheias nas estações da região criam camadas de matéria orgânica no solo. Os brigadistas costumam dizer que é como se fosse um sanduíche: uma camada de terra, outra de vegetação, outra de terra, e por aí vai.

Ao longo dos anos, esse material se torna altamente inflamável. Quando essa vegetação é afetada por queimadas, o fogo pode atingir uma dessas camadas mais profundas dela, ricas em matéria orgânica e altamente inflamáveis, e se espalhar por baixo da camada mais superficial da terra até encontrar alguma fissura e uma vegetação mais seca para emergir.

3 – Áreas de difícil acesso

No atual período de seca, o acesso a diversas regiões do Pantanal se torna tarefa complicada. Isso porque o bioma tem inúmeras áreas que somente podem ser acessadas por meio de barcos ou aeronaves.

“Neste ano em que o rio Paraguai está em um nível baixo, a navegabilidade se torna muito mais difícil e lenta. Não são todas as áreas que têm estradas. As equipes de combate se deslocam com dificuldades. Esse tempo perdido para chegar ao fogo faz com que ele possa crescer mais”, explica Alexandre de Matos, do Prevfogo.

4 – Os ventos

Quando conseguem chegar ao local do incêndio, a equipe pode ter dificuldades causadas pelos ventos, que podem mudar de direção subitamente.

“Algumas pessoas acabam sendo pegas de surpresa por essas mudanças de direção dos ventos. Além de acelerar o fogo e dar mais oxigênio para que ele se expanda, o vento pode reacender pequenos braseiros e resquícios que estão ali e basta um pequeno sopro para reacender”, explica André Siqueira, da ONG Ecoa.

5 – A falta de conscientização

Os incêndios que atingem o Pantanal têm causas humanas, segundo especialistas. Segundo Júlio Sampaio, do WWF, uma das principais causas atualmente são as práticas agrícolas e pecuárias, que têm o fogo como importante recurso.

“O fogo que estamos vendo no Pantanal não é natural. Ele poderia ser evitado. Há medidas que poderiam ser tomadas para diminuir a severidade desses incêndios. O problema é que no Pantanal existe essa cultura do uso do fogo como ferramenta de trabalho entre fazendeiros e ribeirinhos”, diz o especialista.

6 – A demora para agir e o pouco combate

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil consideram que os governos estaduais e federal demoraram para agir em relação aos incêndios no Pantanal. Eles apontam que a região sofre com a seca e um número incomum de queimadas desde os primeiros meses do ano, mas as autoridades só demonstraram preocupação com o bioma quando os incêndios atingiram níveis alarmantes.

Representantes de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul negam que tenham demorado para agir no combate aos incêndios do Pantanal. Eles afirmam que desde o início do ano têm acompanhado a situação do bioma e alegam que tomaram medidas conforme a disponibilidade de pessoas e equipamentos de cada um dos dois Estados.

Em meados de julho deste ano, o governo federal publicou um decreto em que proibiu queimadas em todo o território nacional por 120 dias. Especialistas apontam que a medida é ineficaz, pois não há intensa fiscalização sobre o assunto.

BBC News Brasil | Foto: EPA/ROGERIO FLORENTINO

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