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Por que desemprego piorou se número de vagas com carteira subiu?

3 de outubro de 2020

Dois dados oficiais sobre emprego noticiados na última quarta-feira (30), à primeira vista, podem parecer conflitantes. Enquanto o IBGE divulgou sua pesquisa indicando que o desemprego bateu recorde no trimestre de maio a julho, atingindo 13,1 milhões de pessoas, o Ministério da Economia afirmou que o Brasil abriu 249.388 vagas de emprego com carteira assinada em agosto, o segundo mês seguido de saldo positivo.

Apesar de parecerem opostos, economistas dizem que os dois dados apontam para uma tendência recente de melhora do mercado de trabalho, à medida que a quarentena vai sendo flexibilizada e a atividade econômica começa a reaquecer.

“A razão que explica os dois movimentos é exatamente a retomada das atividades econômicas de uma maneira mais generalizada”, diz o economista Mauro Rochlin, professor dos MBAs da FGV (Fundação Getulio Vargas).

Por que há divergência?

É comum a estatística de desemprego aumentar quando a economia começa a melhorar. Seguindo recomendações internacionais, o IBGE considera desempregado apenas quem está procurando emprego. Ou seja, quem desistiu da busca, por exemplo por causa da dificuldade do mercado em um período de crise profunda, não entra para essa estatística.

“Muitas vezes, quando a gente está saindo de uma crise, o desemprego aumenta, porque as pessoas que antes tinham desistido se animam a procurar um emprego”, explicou Eduardo Zylberstajn, economista e pesquisador da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas)

Ou seja, elas voltam ao contingente de desempregados, aos olhos da pesquisa. A taxa de desemprego pode subir apesar de o emprego estar melhorando.

Há mais gente procurando vagas

As empresas estão retomando as atividades e voltando a contratar.

“Mas, como o número de pessoas que retornou à busca de emprego foi muito maior do que o de novos postos de trabalho, apesar do avanço no número de vagas, há o aumento na taxa de desemprego”, falou Rochlin.

Qual o papel da pandemia?

Na atual crise, provocada pelo coronavírus, a desistência da busca por vagas foi um fator ainda mais acentuado, já que muitos deixaram de procurar emprego não apenas pelo desalento, mas também para não sair de casa em meio à pandemia. Com a flexibilização da quarentena, mais gente vai procurar emprego.

“Além de tirar o trabalho, a pandemia também impossibilitou sua procura, ou por conta das medidas restritivas, ou porque as atividades econômicas estavam suspensas ou, ainda, por questões de saúde pessoal”, disse Adriana Beringuy, analista da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) do IBGE.

Voltamos ao normal?

O aumento das vagas indica uma melhora na economia, mas ainda não voltamos para a condição de emprego pré-pandemia. Em 2020, o saldo de empregos com carteira ainda é negativo: nos oito primeiros meses do ano, foram perdidos 849.387 empregos.

“É uma melhora que tem que ser contextualizada. A gente está recuperando uma parte daquilo que foi perdido por conta da pandemia”, acrescentou Zylberstajn.

Os números são bons?

“Acho que esses números são surpreendentes. Está se falando pouco disso, também é uma coisa muito recente, mas a abertura de 250 mil novas vagas no mercado formal é um número que me impressiona. Imagino que, pela leitura do noticiário econômico, a gente não via nenhum especialista falando que seria tão vigorosa a retomada”, avaliou Mauro Rochlin.

O que ajudou a economia?

Para Rochlin, os dados de emprego com carteira também estão sendo afetados positivamente pelas medidas do governo Jair Bolsonaro (sem partido) para reduzir os impactos da pandemia. Foram importantes tanto a possibilidade de suspensão de contratos e redução de jornadas e salários pelas empresas, quanto o auxílio emergencial.

No caso do auxílio, ele afirma que a injeção de dinheiro na economia puxou a demanda, que tinha sido muito impactada pelas medidas de isolamento social, ajudando na recuperação econômica.

E o futuro?

O futuro do emprego depende do avanço do coronavírus, se a doença tiver uma nova onda e forem retomadas as medidas de isolamento. O eventual fim das medidas de auxílio do governo também deve pesar.

“Acho que o governo vai prorrogar isso enquanto ele perceber a necessidade desse apoio. A gente tem vários setores que vão demorar para voltar, principalmente na área de serviços, restaurantes, tudo ligado ao turismo”, analisou Eduardo Zylberstajn.

O Renda Cidadã vai ajudar?

A equipe econômica estuda um programa social para ampliar o Bolsa Família, por ora chamado de Renda Cidadã. A dificuldade para bancar esse novo programa, porém, ainda é fonte de muito debate no governo.

“A gente pode estimar que cerca de 4 milhões de vagas foram destruídas, mas a gente teve um auxílio emergencial que alcançou mais ou menos 60 milhões de pessoas. Então a enxurrada de dinheiro que isso representou mais do que compensou os salários que seriam pagos caso essas 4 milhões de vagas não tivessem sido destruídas. Eu tendo a achar que o fim do auxílio emergencial vai tornar as coisas mais difíceis, e que a gente está vendo um soluço [no mercado de trabalho]”, disse Mauro Rochlin.

UOL

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