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Como e por que decidi resgatar os relacionamentos de que me afastei após as eleições de 2018

9 de janeiro de 2022

Me chamou a atenção uma entrevista em que o ator Marcos Pigossi relata como rompeu com o pai depois de 2018.

O contexto, para resumir a vocês é: ele vinha de um processo de tentar colocar sua homossexualidade publicamente. A família sabia, mas esse era um não-assunto, aquele tipo de coisa que todo mundo em casa sabe, mas ninguém comenta.

Vou abrir aspas para o que ele disse à Piauí.

“Afinal, Bolsonaro era o sujeito que dissera preferir um filho morto a um filho gay. Que gay é resultado da falta de surra. Que não é bom alugar uma casa para um gay porque desvaloriza o imóvel. Sempre tive dificuldade de entender como um pai escolhe votar num político que insulta seu próprio filho de modo tão visceral”.

Eu concordo

Eu sei como é, Pigossi. Não tive grandes dificuldades em lidar com esse assunto na minha família.

Mas tive em lidar com familiares defendendo Bolsonaro em questões que para mim afrontam pactos civilitazórios.

Afrontam como nos relacionamos como indivíduos.

Aí se instalou o desejo de destruir o outro.

Mas o problema desse pensamento alicerçado no rancor é que eu tomo veneno esperando que o outro morra.

Não funciona.

Bolsonaro pode até perder em outubro deste ano, mas já tem a vitória de ter aprofundado a cisão do Brasil como sociedade em um ponto difícil de resgatar.

Não há o que perdoar

Pensei depois em perdoar as pessoas de quem eu tanto gostava que passaram a defender coisas que para mim eram macabras.

Mas esse também é um pensamento equivocado.

Partiu noutro dia Desmond Tutu. Vi muita gente usando o nome dele.

Gente que nunca folheou uma página do “Livro do Perdão”, uma obra primorosa de Tutu, o homem que ajudou a fundir a África do Sul pós-apartheid, e que recomendo a todos.

Da obra de Tutu, compreendi que perdão é uma condição moral em que alguém está superior (quem vai perdoar) e alguém está inferior (quem será perdoado).

Mas aí eu pergunto: por que quem votou em Bolsonaro é inferior a mim? Não é.

Porque o raciocínio oposto pode ser aplicado: aqueles que votaram em Bolsonaro têm o direito de pensar que são inferiores aqueles que criticam o presidente.

Nessa rinha, nos afastamos mais do que nos aproximamos.

Sem apartheid

Os princípios reunidos por Marshall Bertram na Comunicação Não Violenta, utilizados hoje no mundo todo para arbitrar conflitos, é o que tem me ajudado e me aproximar de pessoas que contribuíram tanto na minha vida e que deixei para trás por política.

A CNV é uma premissa simples e funciona nessa ordem.

1) Observação da situação, sem julgamentos (essa parte é bem difícil);

2) Detectar o sentimento que se mobiliza em mim;

3) Qual a necessidade que o sentimento gerou

4) Fazer um pedido.

Na prática:

Fulano, quando você vem a mim falar sobre as ideias antivacinas do presidente da República (1), eu tenho raiva (2) porque acredito na necessidade de todos se vacinarem (3). Você poderia não conversar sobre isso mais comigo (4)?

Funciona!

Compreendi que desejo que esse homem que está na presidência passe logo. Mas também sei que todos aqueles que votaram nele o fizeram por circunstâncias pessoais, por algum conjunto de crenças próprio da pessoa, e que ela não se identifica completamente com Bolsonaro.

Tanto assim o é que o presidente perdeu popularidade.

Não vale a pena perder os afetos por ele.

Nem por nenhum outro político.

Não vale.

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