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Silêncio, solenidade e mensagens pessoais: como está sendo o velório da rainha dentro do Palácio de Westminster

15 de setembro de 2022

O calor morno prevalece no Westminster Hall, o majestoso salão de pedra que abriga o caixão da rainha Elizabeth II, morta no dia 8 de setembro aos 96 anos. O El País chegou ao local meia hora depois que os primeiros cidadãos começaram a passar. Eles chegarão a pelo menos meio milhão, e por horas esperam pacientemente em uma fila de vários quilômetros na margem sul do Tâmisa.

O silêncio é impressionante, favorecido por dois enormes tapetes de cor ocre que foram dispostos em ambos os lados do catafalco, a plataforma sobre a qual o caixão foi disposto, que amortecem os passos dos visitantes. No chão de pedra, qualquer ruído de passos poderia ser ensurdecedor.

Mas não são apenas os tapetes. O silêncio dos cidadãos que desfilam é esmagador. Alguns rostos parecem mais sinceros que outros, alguns parecem ensaiados para a ocasião, outros são de surpresa e o das crianças é de curiosidade. Porém, todos compõem o ar de sobriedade imposto pela ocasião.

São duas filas que descem para o átrio a partir das escadas, sob o impressionante vitral que recorda todos os parlamentares e trabalhadores de ambas as câmaras do Parlamento britânico que morreram na Segunda Guerra Mundial ― o Westminster Hall é o aposento mais antigo do palácio que abriga o Legislativo britânico.

À frente já se vê o catafalco, uma plataforma acarpetada com quatro níveis. O caixão de Elizabeth II repousa no meio. Acima dele, a coroa de Estado, o orbe, joia que representa o globo terrestre, e o cetro que a rainha carregava durante sua cerimônia de coroação. Dez soldados ― quatro da Torre de Londres, dois da Guarda Real, dois da Cavalaria Real e dois Granadeiros ― ficam de guarda ao redor do caixão.

A fila anda rápido, mas aos solavancos. Cada cidadão usa à sua maneira os segundos de que dispõe em frente ao caixão. Algumas mulheres param para fazer uma reverência completa, outros fazem o sinal da cruz. Muitos choram, mas de forma discreta.

Curiosamente, os menos formais acabam sendo os mais sentimentais. Como um homem de preto com longos cabelos grisalhos presos em um rabo de cavalo, que se ajoelha completamente e se benze, chorando como uma criança. Ou o homem corado, de shorts camuflado, jaqueta camuflada, tatuagens em cada centímetro exposto de sua pele e cabeça raspada. Ele também não conseguiu segurar as lágrimas. Um outro homem, quase um adolescente, mandava beijos na direção do caixão com as mãos.

A maioria, no entanto, mostrou contenção. Quase todos usavam preto. Os homens, principalmente os mais jovens, cruzavam as mãos na altura cintura enquanto caminhavam, em busca da solenidade necessária. Alguns visitantes vestiam fraque ― membros da Câmara dos Lordes ― e muitos usavam terno ou jaqueta. Jacob Rees-Mogg, o parlamentar conservador que incendiou o debate político com o Brexit e foi recentemente apontado como novo secretário de Negócios e Energia, misturou-se aos demais visitantes, com um gesto sóbrio.

Às 17h40 de quarta-feira (13h40 no Brasil), os policiais e porteiros que puseram ordem no saguão ― sem muito trabalho, as pessoas já vêm de casa em ordem ― interromperam o fluxo de visitantes. Da escada do canto norte, os quatro soldados que iriam substituir a guarda começaram a descer. Isso acontecerá a cada 20 minutos até o início da manhã de segunda-feira. Eles caminham pelo centro do corredor, seus passos ecoando alto no chão de pedra.

Ninguém quer sair completamente. No final do passeio, muitos cidadãos voltam os olhos para o caixão e param. A reverência é novamente inevitável. Alguns inclinam apenas a cabeça, outros dobram exageradamente a cintura.

Na manhã de quarta-feira, a agitação foi intensa. Alguns caminhões recolhiam a terra espalhada em antecipação à chegada dos cavalos do cortejo fúnebre. Ouvia-se o barulho da rua. Parlamentares e trabalhadores do Parlamento conversavam entre si. O ruído de fundo contrastava com o que se vivia no interior da sala.

Cortejo fúnebre

Às 14h20 de quarta (10h20 no horário de Brasília), começou o primeiro grande ato solene do que serão os últimos dias de Elizabeth II em Londres. A coroa do Estado, símbolo da autoridade monárquica, repousava sobre o caixão. Em uniforme militar, o rei Charles III caminhou atrás do caixão, com o ritmo solene e lento imposto por um cortejo fúnebre observado por milhares de cidadãos ao longo do percurso.

Próximo ao monarca, também em trajes militares, caminhavam seus irmãos, a princesa Anne e o príncipe Edward. Andrew, o Duque de York, afastado de suas funções públicas devido ao relacionamento escandaloso que teve com o milionário e pedófilo americano Jeffrey Epstein, também desfilou, mas em trajes civis. Assim como o príncipe Harry, também relegado das atividades da família real. Ele andou na segunda fila, como seu irmão William, agora príncipe de Gales. Como herdeiro do trono, William desfilou atrás de seu pai, também vestido com uniforme militar completo.

Quarenta minutos de procissão seguidos por milhares de cidadãos que esperaram pacientemente por horas. Alguns baixaram a cabeça quando o caixão passou. Outros arrancaram um tímido aplauso. Mais de um fez saudação militar a quem, em algum momento de sua vida, havia sido a comandante em chefe.

Ao longo da procissão, salvas de canhões podiam ser ouvidas a cada minuto, vindo do Hyde Park, nas proximidades. O lendário Big Ben, localizado no topo da Torre do Relógio de Londres, a Elizabeth Tower, também soava nesses intervalos. Chegando a Westminster Hall, oito membros da Guarda Real, respeitosamente despidos de seus gorros de pele de urso, levaram o caixão para o catafalco no centro da grande nave.

A primeira-ministra britânica, Liz Truss, o líder da oposição trabalhista, Keir Starmer, parlamentares, membros da família real e personalidades britânicas relevantes estavam esperando a monarca. O arcebispo de Canterbury, Justin Welby, deu sua bênção em uma breve cerimônia religiosa.

Lá fora estavam os verdadeiros protagonistas dos próximos dias, em uma fila de vários quilômetros, esperando até que o funeral de Estado seja realizado na próxima segunda-feira: todos os cidadãos cujas vidas foram marcadas pelo reinado de Elizabeth II, prontos para se despedir definitivamente da rainha.

O GLOBO

Foto: Yui Mok/AFP

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