Estadão abandona moderação e critica duramente Bolsonaro

O jornal O Estado de S.Paulo publica o segundo editorial, em pouco mais de uma semana, cobrando postura do presidente Jair Bolsonaro.

Hoje, sob o título Procura-se um presidente, a publicação dos Mesquitas critica o comportamento de deputado do baixo clero.

“Sem entender qual é natureza da função para a qual foi escolhido pela maioria dos eleitores no ano passado, o sr. Bolsonaro drena as energias do País ao concentrar-se em temas de pouca relevância”.

Na campanha de 2018, o Estadão fez campanha para Bolsonaro.

É dado a todos o direito de se arrepender.

A difícil tarefa de entrevistar a mãe de um assassino adolescente

A repórter especial da Folha Fernanda Mena conta o bastidor da excelente reportagem que ajudou a traçar o perfil de um dos assassinos na tragédia de Suzano.

Confira:

Soube que dois jovens haviam aberto fogo contra estudantes e funcionários da escola Professor Raul Brasil ao receber uma mensagem de celular com um link e a pergunta: “Você pode ir para lá?”.

Sob o impacto da notícia, era impossível não pensar na dor e no trauma de famílias e sobreviventes. Neste exercício de imaginação, o lugar que me pareceu mais difícil foi o dos pais dos meninos que haviam protagonizado o massacre e também estavam mortos.

Nunca ouvi falar de alguém que criasse um filho para ser morto ou para matar. Muito menos as duas coisas juntas. Pensei nas minhas filhas. Aquilo dava arrepios.

No percurso de mais de uma hora até a escola, li tudo o que podia do noticiário, entrei nos perfis das redes sociais de Guilherme Taucci Monteiro, 17, e Luiz Henrique de Castro, 25, e li algumas das já centenas de mensagens de ódio postadas.

Tempo esgotado.

Na aglomeração em torno da escola, busquei por sobreviventes e funcionários da escola num mar de curiosos, repórteres e equipes de TV. Eles já não estavam mais por ali.

Encontrei uma menina que chamarei de Maria, 17. Ela contou como havia sido pisoteada na correria do salve-se quem puder, e exibiu escoriações na cabeça e nos braços.

Mostrou uma foto que havia tirado com “a tia” da escola às 9h06 daquela manhã, apenas meia hora antes de a inspetora Eliane Xavier ser morta.

Chorou ao falar do amigo Cleiton Ribeiro, 17, que havia sido visto por um colega com um ferimento a bala no peito.

E então contou que conhecia Guilherme de vista. Disse que ele era do tipo quietão e que frequentava uma LAN house no bairro.

Peguei o nome do lugar, descobri o endereço e fui para lá.

Na porta, havia uma equipe de perícia da Polícia Civil. Estavam de saída, levavam uma CPU e disseram não ter informações para passar.

A editora de Cotidiano, Luciana Coelho, me procurou pedindo que investisse num perfil dos assassinos.

Entrevistei os jovens frequentadores e atendentes da LAN house e troquei figurinhas com um colega da TV Record, que me deu carona até a rua onde Guilherme e Luiz moravam.

Na chegada, um homem saía pelo portão de madeira da casa da família de Guilherme. Eu me identifiquei e disse que gostaria de ouvir alguém da família.

Ele balançou a cabeça, e disse que era difícil comentar qualquer coisa. Era o tio, e concordou em levar meu pedido à mãe do adolescente.

Ao me ver de conversa, uma repórter se aproximou, seguida pelo câmera. Com o microfone na mão e uma expressão de sofrimento, perguntou: “Mas o que foi que aconteceu? Conta pra gente.”

O homem abriu o portão e eu deslizei para o lado de dentro junto a ele, que passou a chave e gritou: “Ô, Tati, tem uma repórter aqui querendo falar com você.”

A casa, encortiçada, tinha sido dividida em duas. A entrada principal original estava do outro lado do muro. Por uma abertura improvisada, de frente para o corredor lateral, surgiu Tatiana Taucci, 35, de vassoura nas mãos.

Ela olhou para mim, anunciou que não falaria com ninguém, e voltou para a varrição. Na beira da porta, um senhor fumava um cigarro.

Como insistir num caso desses? Quando desistir? Fiquei ali parada, pensando.

Jornalismo, entre muitas coisas, é um exercício de perseverança, respeito e sorte.

Minha estratégia, muitas vezes falha, é abrir o jogo. Disse que achava importante ouvir as famílias dos meninos, saber como eles eram em casa.

“Era um menino muito tranquilo”, disparou o senhor, que depois disse ser o avô que o criou desde pequeno.

Tatiana surgiu de novo, agitada, e reiterou sua negativa.

Achei que era caso perdido, e iniciei um pedido de desculpas por ter perturbado aquela família, cuja dor me parecia tão dura e complexa.

Foi a senha, e Tatiana voltou para dar seu depoimento, permeado por longos silêncios e por lamentos que repetia como mantras.

“Ai, meu filho! Por que você foi fazer uma coisa dessas?”, “E meu irmão? Como vou falar com a minha cunhada?”, “O que vai ser da minha vida?”.

Perguntei se poderia conhecer o quarto do menino. “Só não repara a bagunça.”

Passamos pela cozinha e atravessamos uma área de serviço pequena, úmida e entulhada para chegarmos ao cômodo sem janelas.

Ele não deixou nenhuma carta? “Nada”, disse ela, revirando os papéis da mesa. Ao ler um envelope, perguntou: “O que é Mercado Livre?”.

A polícia ainda viria a descobrir que as armas brancas usadas pela dupla no crime tinham sido compradas no popular site de vendas.

Fomos para a sala, onde o avô e a tia, que amamentava uma bebê , assistiam aos programas policiais da tarde.

Eram 18h quando saí pelo portão. Tentei falar com a família de Luiz, sem sucesso.

Não havia tempo para ir à Redação da Folha, e optei pela LAN house onde, até outro dia, Guilherme e Luiz gritavam palavrões durante partidas de videogames de tiros.

Tive pouco mais de uma hora para redigir o texto em meio a jovens que choravam abraçados, se indignavam, ou apenas jogavam.

A Ombudsman da Folha deu um tapa no jornal e bofetadas em Bolsonaro e nos filhos neste domingo

Segue trecho da coluna de Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha de S.Paulo.

Neste domingo (30), ela criticou o fato de o jornal ter adotado ao longo da transição coberturas baseadas no off, que acabaram desmentidas por Bolsonaro. Para ela, é muito arriscado pois o leitor fica, em algumas situações, sem saber quem está falando a verdade.

Na sequência, no entanto, ela faz a seguinte reflexão:

Bolsonaro, quando acuado, tem como padrão de resposta atacar seus acusadores sem se importar com a verdade factual. Foi assim nos casos da funcionária-fantasma no gabinete, do apoio empresarial ilegal para disparo em massa de mensagens de WhatsApp e agora no de ex-funcionário do filho que depositou cheque para a primeira-dama, numa investigação que tem como linha principal, até o momento, a possível cobrança de pedágio de funcionários de ao menos um gabinete de parlamentar da família Bolsonaro.

Os filhos seguem a linha do pai, ou seja, ameaçam jornalistas, convocam levantes contra a imprensa, desfiam teorias conspiratórias criativas sem calço na realidade. Todos, nos momentos de maior questionamento, replicam uma pergunta nas redes sociais: “Quem mandou matar Bolsonaro?”.

É inegável que a facada que o então candidato presidencial tomou em Juiz de Fora, que a polícia atribui até agora a uma ação isolada de um descontrolado, é notícia relevante e esforços devem ser empreendidos pelo jornal na busca de respostas definitivas. No entanto, os Bolsonaros relembram o tema sempre que necessitam de uma cortina de fumaça para que fujam de dar explicações necessárias sobre seus atos, dos temas mais graves aos mais comezinhos.

Nada será como antes após o ciclo que se inicia com a posse do novo governo em 1º de janeiro. Se para melhor ou pior, não vale a pena arriscar, mas os prognósticos até aqui são preocupantes.

‘O que é fascismo?’, ‘Como fazer gasolina?’, ‘Por que votar no Bolsonaro?’; aqui está a lista das perguntas mais feitas ao Google no Brasil em 2018

Estão prontinhos os dados do Google que revelam o comportamento dos usuários com base nas pesquisas feitas ao longo de 2018.

Vamos nos deter a falar sobre o Brasil.

Provavelmente você, que está lendo este post, já entrou no Google nesse ano para fazer alguma pesquisa que começava com “Como fazer…” ou “O que é…?” ou ainda “Por que…”

As listas são baseadas nos termos de pesquisa que tiveram o maior aumento neste ano em comparação com o anterior.

Para entender a importância desses resultados: é a partir deles que o marketing digital é feito. Ou você acha que é coincidência perguntar uma coisa ao Google para, na sequência, ver um anúncio sobre o produto que você pesquisou em suas redes?

Vamos começar pelas perguntas

1) Como fazer…?

Os dez tutoriais mais requisitados ao Google pelos brasileiros foram:

2) O que é…?

Na lista de perguntas sobre conhecimento, a líder tem toda relação com a eleição presidencial. O termo ficou sendo pesquisado muito pouco, até que, em 7 de outubro, três semanas antes da eleição, disparou. Confira:

3) Por que…?

A busca por respostas revela ainda curiosidades interessantíssimas. Por exemplo, a sétima busca mais listada foi pela pergunta ‘Por que a Nadja foi expulsa de A Fazenda?’, conforme segue:

Por que denúncias sobre corrupção são tratadas como verdade consumada e as de violência sexual não

 

Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha de S.Paulo, adverte o maior jornal do país em sua coluna neste domingo sobre a necessidade de se criar mecanismos para investigar denúncias de assédio sexual.

Ela destaca como o assunto é recheado do protecionismo nos círculos de poder, inclusive dentro dos jornais.

A coluna vem na esteira do caso do médium João de Deus.

Costa questiona algo extremamente pertinente. Reproduzo trecho de sua coluna:

Publicam-se longos relatos de delações premiadas, muitas das quais baseadas em inferências e em reprodução de conversas de terceiros. Nos casos de assédio, o relato de vítimas é tratado com desconfiança máxima, exigindo provas concretas, como se a maioria dos crimes sexuais pudesse ser (e tivesse de ser) atestada por meio de exames médicos e perícias científicas. A realidade mostra que não é assim.

A ombudsman relembra que, em 2009, a Folha foi o primeiro jornal a explorar relatos de denúncias contra o médico Roger Abdelmassih. Mas houve muitas precauções: A reportagem não foi editada na capa do caderno nem tinha chamada na primeira página.

Parêntese meu: é indispensável o direito ao amplo contraditório e não se devem tomar denúncias como fatos consumados. Mas é preciso mexer no pensamento vigente que ainda predomina sobre desacreditar as vítimas de violência sexual.

Por que os juízes do RN romperam com a afiliada da Globo e seu diretor de classe está dizendo que a tv conta ‘muita mentira?’

A Associação de Magistrados do RN decidiu romper o relacionamento de mídia com a Intertv Cabugi.

A decisão, conforme nota assinada pelo seu presidente, juiz Herval Sampaio, é “em caráter preventivo, até ulterior deliberação, considerando as recorrentes abordagens incompletas e distorcidas veiculadas”.

A polêmica entre Globo local e juízes não é nova e começou quando, em editorial recente, após exibir entrevista com Herval Sampaio, a Intertv desferiu críticas sobre os custos da magistratura.

O novo capítulo da disputa é sobre a cobertura da Intertv a respeito dos custos que o Rio Grande do Norte terá no aumento da folha salarial dos magistrados a partir de 2019.

Na quinta (6), o Portal G1RN noticiou que o impacto seria de R$ 6,5 milhões na folha do TJRN.

Instantes depois, no RNTV 1ª Edição, havia o destaque para a cifra anual, de R$ 90,7 milhões. À situação, se seguia crítica e o lembrete de que os servidores do Executivo estão com salários atrasados.

Em qualquer espaço de mídia com crítica no RN, o aumento não poderia deixar de ser noticiado sem as considerações feitas.

O problema é que, explicam os juízes, as críticas extrapolam o campo do contraditório e induzem à má-fé, conforme afirmaram ao blog juízes ouvidos reservadamente.

Sem citar a Intertv, em entrevista à CBN, o presidente da Amarn, Herval Sampaio, subiu o tom.

“A gente vem lamentar que alguns setores da imprensa apelem para o sensacionalismo. Parece que está perdendo audiência, trazendo informações distorcidas sobre a situação remuneratória da magistratura […]. O que me deixa chateado é o uso de trocadilho de palavras para confundir o cidadão, dando a impressão de que essa reposição terá impacto de R$ 90 milhões ao ano. É muita mentira, com todo respeito que eu tenho a quem pensa a botar os dados”, diz Herval.

A íntegra do áudio está aqui

A direção da Intertv Cabugi foi procurada pelo blog para comentar o caso. Não houve reposta até a publicação desta reportagem.

Abaixo, a nota da Amarn: