A Casa do Estudante, Notre Dame, eu e você

 

Sob intervenção judicial desde o ano passado, a Casa do Estudante do RN (CERN) é mais um desses casos que explicitam nossa arrogância sobre o frágil.

O pensador francês Paul Ricœur, em seu livro O Único e o Singular, assinalou muito assertivamente nossa relação com o frágil. Pego emprestado dele – através de João Moreira Sales, em artigo na piauí.

“Onde há poder, há fragilidade. E onde há fragilidade, há responsabilidade. Quanto a mim, diria mesmo que o objeto da responsabilidade é o frágil, o perecível que nos solicita, porque o frágil está, de algum modo, confiado à nossa guarda, entregue ao nosso cuidado.”

O frágil tem o direito de existir.

Nós, o dever de protegê-lo.

Falhamos cotidianamente. Nortre Dame é a face global desse descuido. Percebam que lá só as pedras que erguem a catedral resistiram à desolação do incêndio.

Não há fragilidade na rocha.

Aqui, a governadora Fátima Bezerra decretou a formação de um grupo de trabalho para restaurar a CERN, que funciona em histórico prédio na Cidade Alta por onde passou importante episódio da história do Brasil (Intentona Comunista).

O trabalho junta 11 pastas do governo e convida duas instituições da organização civil.

É, sem dúvida, uma notícia animadora.

Torcemos para que não seja apenas um mero ato do Diário Oficial, especialmente porque a professora Fátima, como gosta de se cravar a governadora, invocou para si a responsabilidade do projeto.

O relatório final do que deve ser feito no grupo de trabalho deve ser entregue a ela.

O grupo tem prazo de 90 dias para reparar nossa irresponsabilidade sobre o frágil.

Que tem, repito, o direito de existir.

Eu estava errado; Colorau tinha razão

Colorau. Ele tinha razão

O odioso áudio em que Marcelo Henrique da Silva Oliveira, conhecido como Colorau e um dos líderes do Sindicato do RN, ordena que seus peões votem em Fátima Bezerra foi um dos episódios mais lamentáveis da campanha de 2018.

Na época, critiquei duramente o episódio. O uso dele pelo governador Robinson Faria o igualou em falta de moralidade ao próprio Colorau, que justificava a ordem explicando que um eventual governo Fátima seria melhor para os apenados.

Colorau olhava para o horizonte do Brasil das regalias, onde cada casta consegue seu próprio benefício.

Os apenados pleiteavam lá as suas, quais sejam, desarticular o trabalho que colocou os bandidos no lugar a que pertencem, qual seja, o de condenados em cumprimento de pena.

Condenei a circunstância e apontei que não fazia sentido um representante do povo endossar tais apelos ecoados da lamentação dos muros prisionais.

Mas eu estava errado. Colorau tinha razão.

As mudanças que a governadora Fátima Bezerra vem promovendo na única área em que Robinson Faria conseguiu acertar demonstra um compromisso com erro. Morre mais uma vez Juscelino Kubitschek, que cunhou a frase segundo a qual não se deve ter compromisso com o erro.

A situação já vinha se desenrolando com alarde quando Mauro Albuquerque passou ao Ceará. Houve então certo alívio diante da expectativa de que seu adjunto continuasse e prosseguisse com as reformas.

Nesse meio tempo, nos bastidores, a cúpula sindical dos agentes penitenciários, que detestava a política que tinha sido implementada, se animou.

O governo os movimentou em favor da desarticulação que Fátima promovia na pasta. É um movimento típico do xadrez, pois, nele, os peões vão na frente.

Na estratégia que lhe foi própria, Fátima colocou uma promotora de Justiça aposentada para a Sejuc, Amelie Brennand. Na sequência, foi de novo ao tabuleiro do xadrez e a movimentou para a casa da Secretaria de Esporte.

E, para a Sejuc, a governadora jogou Pedro Florêncio Filho. Com a jogada, a rainha está sob xeque.

O estandarte do novo secretário é a humanização dos presídios.

É preciso que se explique se humanização ganhou novo sentido porque o ato mais desumano que ocorreu no sistema prisional brasileiro foi sob a batuta desse senhor, quando 56 presos terminaram decapitados no presídio Antonio Jobim, em Manaus.

Ontem, este blog revelou que Florêncio responde por má gestão por sua atuação na pasta prisional do Amazonas. Esse fato somado ao histórico de fracasso do que ele fez no estado do Norte deveria ser basilar para a governadora repensar a estratégia de política carcerária.

Na comunidade jurídica, a movimentação da governadora é vista com péssimos olhos. Juízes avaliam que haverá piora no sistema prisional, com o indicativo de que teremos menos rigor.

Espero, sinceramente, ter que voltar aqui para dizer que, assim como Colorau, eu estava errado sobre Fátima. Por ora, apenas Colorau estava certo.

Com 31 dias de governo, Fátima Bezerra esbanja populismo e esquece gestão

Desde 28 de outubro de 2018, Fátima Bezerra e sua equipe formaram transição, anunciaram generalidades para tirar o Rio Grande do Norte do buraco em que foi enfiado e o tempo, vejam só, passou, claro, sem que nenhuma medida de magnitude tenha sido sequer anunciada.

Com um mês de governo, o proselitismo da senhora governadora em nada difere de seu antecessor, que morreu afogado em otimismo e estava na semana passada no Instagram desabafando sobre gratidão e ingratidão.

Nos governantes a que são entregues o Rio Grande do Norte sobram populismo egocêntrico  e faltam gestão.

Passados 31 dias de seu governo, Fátima titubeou através de seus assessores quando inquirida com uma pergunta: ‘Minha senhora, que medidas serão tomadas para o ajuste fiscal?’

As vagas falas empurraram as repostas para o futuro. Ficou combinado que ninguém iria trair a governadora e que a ela, somente a ela, competiria anunciar as tais medidas.

Jogou-se, então, a expectativa para a mensagem anual à Assembleia Legislativa.

Mas, então, a governadora reuniu-se com os deputados nessa quarta-feira e lhes distribuiu respostas tão vagas quanto as que tem sido dadas até agora.

Noves fora a admissão de que será preciso impor teto de gastos, conforme inclusive já tinha falado neste espaço, Fátima não indicou concretamente nenhuma medida objetiva para resolução da crise fiscal.

Mas, Dinarte, e os decretos sobre cortes de gastos? Tão inócuos como se deixar fotografar comendo em restaurante popular para fazer mídia.

Será Fátima em quatro anos a postar sobre ingratidão e gratidão em sua conta do Instagram.

O que significa esta foto de Hermano Morais e Carlos Eduardo juntos

Hermano Morais e Carlos Eduardo Alves deixaram-se fotografar juntos na procissão de Santos Reis, nesse domingo (6), na zona Leste de Natal.

A foto significa tudo, menos acaso.

Ela enquadra o momento de reorganização das forças carlistas.

Especialmente porque foi Carlos Eduardo quem se inclinou para Hermano.

E isso quer dizer muito.

A arte da política segue velhos tratados sobre a convivência humana.

Para simplificar um deles, se o inimigo de meu inimigo é meu amigo, então a ele vou me aliar.

Evidente que o emprego de ‘inimigo’ é muito forte, mas nem Carlos Eduardo nem Hermano Morais querem ter com o prefeito Álvaro Dias, que estava na procissão de Santos Reis com outra turma.

Desobrigado a manter qualquer compromisso com Carlos Eduardo, Álvaro Dias passou a imprimir estilo próprio e começou a desferir golpes contra a gestão de Alves.

Ou não foi um golpe público a entrevista à Tribuna do Norte em que ele reclama do estado fiscal em que herdou a prefeitura de Natal?

Abro aspa.

“Isso é uma herança que recebemos e foi construída ao longo do tempo que a Prefeitura de Natal estava absorvendo funcionários e não é possível identificar a partir de quando começou essa contratação excessiva”.

Ao longo de que tempo? 

Nos últimos 18 anos, em mais de 13 deles Natal foi administrada por Carlos Eduardo. É impossível não relacionar o ex-prefeito a qualquer crítica sobre o passado da gestão municipal.

E, então, voltamos à foto de Carlos Eduardo para Hermano Morais.

Indignado com o modo com que Cláudio Porpino foi exonerado da Urbana, Hermano, autor da indicação, filiou-se às contrariedades que orbitam em torno de Álvaro Dias.

Porpino foi comunicado de sua saída por Paulo Cesar Medeiros, comandante do Gabinete Civil de Álvaro.

O fato de o prefeito se utilizar de um preposto, e não ter assumido a função ele mesmo, foi considerado deselegante por Hermano, que, com esse espírito, juntou-se a Carlos Eduardo na festa dos Reis.

A vibração de fé expressa pelos dois levantou a tese de 2020 segundo a qual Hermano seria um candidato à altura para combater Álvaro, e com as bençãos de Carlos Eduardo.

Nessa ciranda, Hermano precisaria deixar o MDB, mesmo partido do prefeito de Natal, e filiar-se a uma legenda em que possa ter o apoio de Carlos Eduardo e onde possam compor uma nova foto na disputa pela prefeitura de Natal.

Diferente daquela produzida em 12 de setembro de 2012, quando, adversários na disputa pela prefeitura, Carlos Eduardo colocou o dedo em riste contra Hermano.

Política tem dessas coisas…

Recomendações a todos para 2019

Pego emprestado de um dos livros de Alexis Gurgel o título para minha reflexão.

Como escrevi, fui, portanto, o primeiro a lê-las. São úteis a mim. Mas a todos também.

Das centenas de horas que reservei em 2018 para me dedicar ao crescimento espiritual, recordo de um fato de uma das palestras a que assisti.

O palestrante narrava um experimento no qual pessoas foram colocadas em uma sala com balões de ar cheio na mão esquerda e um palito de dentes na mão direita.

Até que o coordenador do experimento anunciou: “Quando eu contar três, protejam seus balões”. Quinze segundos após a largada, não havia nenhum balão no ar, pois todos haviam sido espetados pelos palitos.

Mas, percebam, a frase de alerta foi ‘protejam seus balões’. Apesar de ninguém na sala ter ouvido “espetem o balão alheio”, foi essa a conduta adotada pelos participantes.

Em um mundo menos imperfeito, todos estariam até hoje com seus balões cheios.

Dois mil e dezenove se trata disso: de proteger nossos balões sem entrarmos numa cruzada contra os balões alheios, pois em nome de promover o bem estamos alimentando nossos espíritos com violência.

Abra mão da negação se você acha que não a tem em alguma forma com você, pois a violência se manifesta nas más inclinações. 

Do mais miserável dos seres humanos ao homem mais rico da Terra, a humanidade atravessa sofrimento.

Todos sofremos.

Submetamos nossas consciências a um exame rigorosamente honesto e haveremos de encontrar em nossos atos as causas de nossas aflições.

Estamos em constante busca exterior para modificar coisas internas. Tanto mais se busca, mais o espírito é assombrado pelo vazio existencial.

Daí que estejamos a lutar contra os mil nadas que ferem.

A cruzada que nos trouxe até este ponto em que predominam as ações para realizações que atendem apenas ao próprio ego cessará quando nos projetarmos para assumir o papel que temos no mundo.

Ele vai além, muito além, de nos ocuparmos com as atividades da vaidade humana – em todas as suas formas.

Só através desse esforço, que reconheço não ser fácil, é que palitos de dentes vão cessar sobre os balões – que nada mais são que nossos deveres diante do mundo.

Por um 2019 com mais balões.

E menos palitos.

Como o puro amadorismo levou Mineiro a dormir deputado federal eleito e acordar suplente

O caso do deputado Fernando Mineiro deverá ser um daqueles que passará para a literatura jurídica como sui generis.

Mineiro tinha tudo para ganhar.

Perdão, ganhar não porque sequer parte do processo ele era.

Mas sua defesa peticionou como parte interessada nos autos do processo em que Kericlis Alves Ribeiro discutia a validade de seu registro de candidatura no Tribunal Superior Eleitoral.

Aqui começa o amadorismo do lado petista.

Com a jurisprudência pacificada sobre o assunto de que o caso de Kerinho era praticamente indiscutível, e que não cabia deferimento de registro, Mineiro foi acompanhando o processo e fazendo apenas isso: acompanhando.

Então, a defesa de Kerinho tentou discutir as provas no TSE.

E conseguiu!

Eu não sou advogado, sou jornalista, mas sei que Cortes Superiores não discutem provas.

A defesa de Kerinho passou a reproduzir no TSE o que disse no TRE. Quando, se Mineiro tivesse atentado, poderia interferir alegando que o pretenso candidato estava discutindo o teor de provas na ação da Corte Superior Eleitoral.

Teria barrado o avanço do caso.

Quem acompanhou a novela, sabe que nesta segunda (17) foi noticiada uma ‘decisão monocrática’, do ministro Jorge Mussi.

Outro deslize da defesa do petista.

Deixou que um assunto de que dependia seu futuro político, e com excesso de autoconfiança, fosse julgado por um único ministro, sem interferir para que o assunto fosse ao menos para o plenário.

Agora, dificilmente conseguirá reverter a situação.

Falo dificilmente porque essa era a situação de Beto Rosado. Que dormiu suplente e acordou deputado federal eleito.

Mas soube agir entre o dormir e o despertar.

Por que denúncias sobre corrupção são tratadas como verdade consumada e as de violência sexual não

 

Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha de S.Paulo, adverte o maior jornal do país em sua coluna neste domingo sobre a necessidade de se criar mecanismos para investigar denúncias de assédio sexual.

Ela destaca como o assunto é recheado do protecionismo nos círculos de poder, inclusive dentro dos jornais.

A coluna vem na esteira do caso do médium João de Deus.

Costa questiona algo extremamente pertinente. Reproduzo trecho de sua coluna:

Publicam-se longos relatos de delações premiadas, muitas das quais baseadas em inferências e em reprodução de conversas de terceiros. Nos casos de assédio, o relato de vítimas é tratado com desconfiança máxima, exigindo provas concretas, como se a maioria dos crimes sexuais pudesse ser (e tivesse de ser) atestada por meio de exames médicos e perícias científicas. A realidade mostra que não é assim.

A ombudsman relembra que, em 2009, a Folha foi o primeiro jornal a explorar relatos de denúncias contra o médico Roger Abdelmassih. Mas houve muitas precauções: A reportagem não foi editada na capa do caderno nem tinha chamada na primeira página.

Parêntese meu: é indispensável o direito ao amplo contraditório e não se devem tomar denúncias como fatos consumados. Mas é preciso mexer no pensamento vigente que ainda predomina sobre desacreditar as vítimas de violência sexual.

Por que os cínicos narcisistas de Natal estão incomodados com a demonstração de afeto de um casal no Carnatal?

No momento em que escrevo este texto, já são seis as conversas privadas que me enviaram o vídeo e três os grupos do WhatsApp em que a vida íntima de Marksuel Figueiredo é discutida.

O apresentador do RNTV estava no Carnatal com amigos e o namorado. A demonstração de afeto e de cuidado de um com outro foi gravada e disseminada na esteira das correntes que marcam aqueles que estão aprisionados na pequenez de seus espíritos.

Marksuel não é o primeiro. Não será o último.

O Carnatal é uma das festas que mais revelam os costumes desta cidade. Há muitas coisas boas para se falar dos natalenses, mas este texto é sobre seu cinismo narcisista, pois não basta ter a alma impregnada do lodo da moralidade, é preciso se orgulhar disso, como acontece com os narcisistas cínicos de Natal.

Os idiotas vencerão não pela qualidade, mas pela quantidade. Eles são muitos, como diria Nelson Rodrigues.

Mas o que, afinal, é tão ameaçado no íntimo das pessoas para elas reagirem com ódio a uma demonstração de amor?

Para além da pequenez de seus espíritos, o psicanalista Francisco Daudt nos dá uma explicação simples: como um islâmico inseguro de sua fé, os abalados com a demonstração de amor de duas pessoas do mesmo sexo querem matar fora algo que mora dentro de si: a suspeita de amor ‘errado’, capaz de destruir o que eles mesmos construíram como visão certa de ser homem.

É quando se instala a condição de homofobia em seu sentido original, medo de iguais.

Pois não existem homofóbicos entre héteros absolutos. Eles não estão nem aí.