Potiguares na lista de mulheres que denunciaram abusos sexuais pelo médium João de Deus

O Ministério Público de Goiás mapeou as denúncias relacionadas ao médium João de Deus e as classificou por localização das vítimas.

Neste critério, há mulheres de 16 estados, mais o Distrito Federal.

A lista de unidades é a seguinte: Ceará, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Pará, Santa Catarina, Piauí e Maranhão.

Há ainda relatos com origem no exterior. Na lista de países estão Alemanha, Austrália, Bélgica, Bolívia, Estados Unidos e Suíça.

A defesa de João de Deus tem declarado que estaria ocorrendo um processo intimidativo para que novas denúncias e declarações sejam registradas.

O MP-GO anunciou uma força-tarefa para cuidar do caso. Já são mais de 500 denúncias.

O médium se entregou à polícia no fim de semana e prestou depoimento onde coisas estranhas aconteceram.

Coisas estranhas aconteceram no depoimento de João de Deus, como um teclado que ganhou vida própria

Na Folha

O depoimento de João de Deus, 76, na noite deste domingo (16), em Goiânia, teve uma sequência de imprevistos que deixou os investigadores desconfiados.

Na hora de o médium falar, segundo os presentes, o computador usado para registrar as alegações do preso parecia ter vida própria. “Você apertava uma tecla e ela OOOOOOOOO…”, descreveu a delegada Karla Fernandes, coordenadora da força-tarefa responsável pelo caso na Polícia Civil.

Estava calor, e a própria delegada resolveu usar uma extensão para ligar o ar-condicionado. Segundo relata a investigadora, o fio explodiu e, de quebra, queimou o frigobar. “Todo mundo gritou dentro da sala.”

O depoimento foi transferido para Goiânia. Foi possível domar o teclado, todos se recuperaram do susto e o interrogatório fluiu por mais de duas horas. 

Para a delegada, os episódios podem não ser só obra do acaso. “Estamos diante de uma situação que envolve crenças e energias.”

Questionada se estava com medo, disse: “Não, mas tenho respeito, até porque sou espiritualista”. Ela classifica João de Deus como um homem que tem, de fato, “um poder”. “Mas houve um desvio no meio do caminho”, disse a delegada.

Este é o vídeo que registra o momento em que João de Deus se entrega com uma mística declaração

A colunista da Folha Mônica Bergamo acompanhou o momento em que o médium João de Deus se entregou à polícia neste domingo.

Ele se abrigou em sítio de amigos na zona rural de Abadiânia. Depois montou barraca num bosque, onde se exilou.

Seus advogados disseram que ele nunca teve a intenção de fugir.

João afirmou na conversa que Bergamo presenciou algumas coisas, como essa frase: “Eu te contei do telefonema? Me telefonaram e disseram: ‘Vamos colocar 50 [mulheres] para falar mal de você. Se você falar alguma coisa, colocamos 200. E, depois, 2.000”.

À colunista da Folha ele disse que se entregará à justiça divina e a justiça da terra.

 

Como João de Deus conseguiu manipular a mais primitiva das emoções humanas, o medo, para cometer abusos sexuais, segundo as vítimas

 

“Tinha muito medo deles mandarem espíritos ruins, da minha vida se tornar miserável, de não conseguir dormir”.

A afirmação é da holandesa Zahira Mous a Pedro Bial. Ela é uma das únicas que, até agora, deu rosto à voz na onda de denúncias contra o médium João de Deus.

Como ela, diversas mulheres repetiram o mesmo padrão. Temiam retaliação espiritual.

Parece algo surreal, mas fica fácil de compreender quando vamos para o campo da fé.

Fé tem, originalmente, sentido de fidelidade. É um atributo de relacionamento.

As fiéis em questão que denunciaram os abusos temiam, portanto, a perda do relacionamento com o poder superior que cada uma tinha e acreditavam em João de Deus como mediador dessa relação.

Tal noção de perda ainda passa pela projeção humana de vingança. Ou seja, por carregarmos as inclinações de raiva e de quando terminamos um relacionamento a outra pessoa, segundo nossa ideia, tende a nos retaliar, as fiéis assediadas se sentiam acuadas a partir de um pensamento inconsciente: de que haveria uma vingança espiritual, como destacou a holandesa em sua fala.

Ao mexer com medo e fé, João tirava seus abusos do campo da razão. A mais primitiva das emoções, medo, aliada à fé, é elemento retubante contra a razão. Daí fazer sentido a situação subsequente que a holandesa viveu: a negação do que lhe aconteceu, pois a emoção predominava sobre a razão.

João de Deus teve a prisão preventiva decretada e é considerado foragido pelas autoridades policiais.

Por que denúncias sobre corrupção são tratadas como verdade consumada e as de violência sexual não

 

Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha de S.Paulo, adverte o maior jornal do país em sua coluna neste domingo sobre a necessidade de se criar mecanismos para investigar denúncias de assédio sexual.

Ela destaca como o assunto é recheado do protecionismo nos círculos de poder, inclusive dentro dos jornais.

A coluna vem na esteira do caso do médium João de Deus.

Costa questiona algo extremamente pertinente. Reproduzo trecho de sua coluna:

Publicam-se longos relatos de delações premiadas, muitas das quais baseadas em inferências e em reprodução de conversas de terceiros. Nos casos de assédio, o relato de vítimas é tratado com desconfiança máxima, exigindo provas concretas, como se a maioria dos crimes sexuais pudesse ser (e tivesse de ser) atestada por meio de exames médicos e perícias científicas. A realidade mostra que não é assim.

A ombudsman relembra que, em 2009, a Folha foi o primeiro jornal a explorar relatos de denúncias contra o médico Roger Abdelmassih. Mas houve muitas precauções: A reportagem não foi editada na capa do caderno nem tinha chamada na primeira página.

Parêntese meu: é indispensável o direito ao amplo contraditório e não se devem tomar denúncias como fatos consumados. Mas é preciso mexer no pensamento vigente que ainda predomina sobre desacreditar as vítimas de violência sexual.

Após centenas de relatos de abusos sexuais, Justiça decreta prisão do médium João de Deus

Do R7

A Justiça de Abadiânia (GO) acatou o pedido do MP-GO (Ministério Público de Goiás) e decidiu, nesta sexta-feira (14), pela prisão preventiva de João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus. As informações são da RecordTV Goiás, que confirmou a ordem com mais de uma fonte.

O processo corre em segredo de Justiça e ainda não se sabe para qual presídio o médium será levado. A reportagem tentou contato com a defesa de João de Deus, mas ainda não obteve resposta. 

O Ministério do Público está fechado nesta sexta devido ao feriado local. Mesmo assim, está acontecendo uma reunião da força-tarefa responsável pela investigação.